A guerra da Rússia e a necessidade de uma solução para os fertilizantes no Brasil

A guerra entre Rússia e Ucrânia nos mostrou algo que devíamos ter aprendido há um bom tempo: o Brasil precisa reduzir sua dependência de trigo e fertilizantes estrangeiros, aumentar a produção doméstica e diversificar as importações.

O MT Econômico traz nessa matéria exclusiva especial sobre fertilizantes, o atual contexto que vive o setor agropecuário em relação aos insumos, tendências, entraves e possíveis soluções.

Além de causar tensão generalizada no Leste Europeu, a guerra ucraniana afetou severamente a economia do Brasil e do mundo. No mercado de fertilizantes, a situação não é exceção.

Pensando nisso, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) vai criar uma frota de apoio técnico aos produtores rurais. O objetivo da medida é aumentar a eficiência do uso de fertilizantes de 60% para 70% e economizar US$ 1 bilhão em custos de uso do produto na próxima safra.

As negociações entre os países

O presidente russo, Vladimir Putin, se encontrou com o presidente brasileiro Jair Bolsonaro em Moscou em fevereiro de 2022 para uma reunião comercial que culminou em acordos de energia e agricultura.

O Brasil é membro dos países do BRICS (países de mercado emergente em relação ao seu desenvolvimento econômico) e compartilha os interesses agrícolas da Rússia. O país tem um lobby do agronegócio politicamente poderoso, e o presidente do Brasil está discutindo a compra de fertilizantes muito necessários.

O acordo também afeta a Ucrânia, outro grande produtor de fertilizantes, pois liga Brasília a Moscou, não Kiev. A maior parte das importações de US $ 5 bilhões do Brasil da Rússia em 2021 foram produtos fertilizantes, um número que agora deve aumentar significativamente.

Em Mato Grosso, por exemplo, a importação de fertilizantes em 2021 correspondeu a 85% de tudo que foi importado ao Estado de outros países, segundo levantamento do MT Econômico com base em dados do MDIC, da plataforma Comex Stats, do governo federal.

Bolsonaro também concordou com a Rostacom, agência de energia nuclear da Rússia, para fornecer e construir novas usinas de pequenos reatores no Brasil, incluindo versões terrestres e flutuantes de usinas nucleares de baixa capacidade. Rosatom, que tem experiência anterior no Brasil, assinou um acordo em setembro passado com a estatal brasileira Eletronuclear para gerenciar os dois reatores existentes no país, cooperar na construção e manutenção de novas usinas nucleares e auxiliar no processamento de materiais nucleares e radioativos.

Entre fevereiro de 2021 e janeiro de 2022, a Rússia importou US$ 2,35 bilhões do Brasil, sendo a maior parte café, soja, nozes, aves e tabaco brasileiros.

Os fluxos de importação e exportação entre os dois países têm sido erráticos nos últimos 12 meses, o que não favorece os planos de produção: melhor gestão do comércio e parceria econômica farão parte da discussão.

Sinal de alerta ligado para um aumento na produção interna

No fim das contas, apesar de o cenário ter parecido melhor em algum momento, o Brasil precisa aumentar a produção devido a uma possível escassez de trigo. Essa é a avaliação de Francisco Turra sobre o impacto da guerra entre Rússia e Ucrânia no agronegócio brasileiro. Além de ex-ministro, Turra também é presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).

Segundo ele, Rússia e Ucrânia fornecem cerca de 40% das exportações globais de trigo, cerca de 40 milhões de toneladas. Do trigo consumido no Brasil, 70% é destinado à produção de proteína de aves. Sendo assim, a solução para nossa crise parece lógica: devemos aumentar a produção de trigo.

Aumentamos a safra no Rio Grande do Sul em 61% e vamos continuar porque é uma oportunidade e uma necessidade para o Brasil sair dessa dependência. Hoje, os trópicos produzem trigo. Precisamos expandir proativamente a produção de trigo e cevada e talvez até começar a exportar.

Leia também: Apesar de preços históricos das commodities, alta dos fertilizantes pode pressionar custos do Agro

As autoridades brasileiras atentas aos possíveis problemas

Blairo Maggi, ex-ministro e atual presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (ABIOVE), disse que o principal impacto da guerra no agronegócio brasileiro é a incerteza, principalmente quando se trata do aumento da oferta de fertilizantes. “Os produtores têm que lidar com uma decisão muito complexa porque precisam tomar uma decisão, então eu diria que a incerteza da guerra é enorme para as empresas e é muito preocupante para todos“, disse.

Ainda segundo ele, o Brasil tem problemas com importações e precisa diversificar seus fornecedores de fertilizantes. Se o Brasil não produz potássio é porque é mais barato comprá-lo do exterior. Para o ex-ministro e atual vice-ministro federal (PP – Mato Grosso) Neri Geller, o Irã pode suprir necessidades de fertilizantes que a Rússia talvez não consiga suprir. A Jordânia também tinha potássio para vender ao Brasil, lembrou Turra.

O professor e ex-ministro Roberto Rodriguez disse que o governo mostrou maneiras de reduzir a dependência de fertilizantes por meio do Programa Nacional de Fertilizantes. “Somos 83% dependentes de fertilizantes importados e 95% de potássio. Podemos reduzir essa dependência pela metade nos próximos 20 anos”, disse ele.

Turra disse ser impossível aceitar que o preço dos fertilizantes causado pelo conflito seja “muito alto”. Precisamos de 43 milhões de toneladas de fertilizantes. Na semana passada, a JBS inaugurou uma fábrica de biofertilizantes no interior de São Paulo. Os rendimentos ainda são pequenos, mas isso é apenas o começo, e outras empresas estão dispostas a explorar a possibilidade de investir em produtos químicos e biofertilizantes. É necessário encontrar alternativas e produtos similares de outros lugares.

Expandir o mercado também pode ser uma solução

Osmar Chohfi falou sobre a apresentação da ABCC à atual ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, sobre fertilizantes que os países árabes poderiam vender ao Brasil. Os fertilizantes são um item importante na agenda comercial do Brasil com o mundo árabe. Em 2020, 18% dos fertilizantes dos países árabes foram embarcados para o Brasil.

Nesta pesquisa, foram identificadas algumas possibilidades e, junto com os embaixadores árabes, estão identificando o potencial para aumentar as exportações de nitrogênio, fosfato e potássio.

É claro que a capacidade de aumentar as exportações árabes de potássio para o Brasil não pode substituir as exportações russas, mas, em geral, é possível aumentar as exportações de fertilizantes do mundo árabe para o Brasil. O embaixador destacou que o governo precisa firmar mais acordos de livre comércio com os países árabes para facilitar a importação e exportação do agronegócio.

Por fim, cinco frentes de pesquisa adicionais estão sendo discutidas para reduzir a dependência do Brasil de importações em 25% até 2030.

A busca por estabilidade vai começar

A partir desse mês de abril, pesquisadores e técnicos da Embrapa visitarão cerca de 30 centros de produção em 9 regiões agrícolas brasileiras, com o objetivo de melhorar a eficiência do uso de fertilizantes e insumos nas terras agrícolas para reduzir os custos de produção e incentivar maior uso de novas tecnologias e melhores práticas.

A operação, que será conhecida como Caravana Embrapa FertBrasil, é uma das medidas de curto e médio prazo previstas no Plano Nacional de Fertilizantes lançado pelo governo federal nas próximas semanas para reduzir a dependência da importação de produtos e tecnologias, um conflito entre a Rússia e a Ucrânia exacerbou a situação.

Nosso objetivo é sensibilizar as lideranças das cadeias produtivas agropecuárias, bem como técnicos, consultores e agentes reprodutivos, para que o Brasil possa superar a crise de fertilizantes por meio de capacitação e troca sistemática de conhecimento entre institutos de pesquisa e setores produtivos. entre pesquisa e agronegócio para encontrar soluções tecnológicas para cada um desses 30 polos agrícolas”, explica Celso Moretti, presidente da Embrapa.

Segundo ele, a caravana de viagens abordará questões práticas de impacto imediato e, juntamente com outras iniciativas planejadas pelo Estado, possibilitará uma economia de até 20% no uso de fertilizantes no Brasil na safra 2022/23, o que poderá agricultores tanto quanto $ 1 bilhão de dólares.

Projeções são animadoras

Até o final da safra 2022-2023, os pesquisadores cobrirão as principais áreas produtoras do Brasil, enfatizando a importância do manejo sustentável do solo e fertilizantes para maximizar a eficiência do uso desses insumos, aumentar a produtividade e garantir a competitividade agrícola e a produção de alimentos no Brasil .

“Quando estudamos agronomia, eles nos disseram que a adubação depende da análise da fertilidade do solo e da folhagem das plantas. Mas sabemos que em muitos lugares do Brasil eles acabam usando um pacote de tecnologia geral que está prontamente disponível. Por exemplo, aplicando 500 kg/ Um hectare de fertilizante NPK [nitrogênio, fósforo e potássio], independentemente da fertilidade do solo, depende do preço do fertilizante“, disse Moretti.

A Embrapa sistematizará estratégias de manejo de água e solo para uso racional de fertilizantes em módulos de palestras padronizados para se adequar às condições dos diferentes biomas do Brasil, adequando e classificando as informações para a área de produção de cada país.

Ao final das apresentações em cada região de produção, serão alinhadas as necessidades de conhecimento técnico da região, seguida de um amplo debate sobre os principais problemas encontrados por cada região. Em algumas áreas, a eficiência de algumas das tecnologias desenvolvidas pela Embrapa será demonstrada por meio de unidades de demonstração de referência técnica.

À medida que o plano é desenvolvido pelo governo e pelo setor produtivo, a caravana também fornecerá um diagnóstico preciso e regionalizado dos atuais desafios de curto prazo enfrentados pelos agricultores para aprimorar cada vez mais as ações do programa nacional de fertilizantes.

Eventos com foco para o desenvolvimento rural

Eventos ao vivo terão como público-alvo técnicos de extensão rural; técnicos de cooperativas, sindicatos de agricultores, associações de agricultores; e lideranças de produção; a meta é atingir cerca de 10.000 profissionais como equipe de pesquisadores e analistas da Embrapa e compor cada Caravana. nossos parceiros.

Toda vez que a Caravana Embrapa passa por uma macroárea agrícola, a Embrapa transforma o conhecimento sistemático em módulos digitais, atende hotspots e contribui para a construção de uma plataforma digital abrangente de conhecimento sobre o assunto, que pode fornecer referências multiplicadoras, como CNA/SENAR, EMATER e cooperativas agroindustriais.

O modelo da Caravana Embrapa FertBrasil passará por atividades de capacitação em diferentes áreas de produção no Brasil durante sua estada. Utilizando o sistema e-Campo da Embrapa ou outras ferramentas de aprendizagem disponíveis, também são planejados eventos virtuais de capacitação pós-caravana para agricultores, lideranças e técnicos. Atualmente, a empresa busca patrocinadores para a Caravana nos setores privado e produtivo.

Esta será a segunda caravana de turismo promovida pela Embrapa. Entre 2013 e 2015, a empresa também visitou as principais áreas produtoras do país para promover soluções técnicas de combate à lagarta do algodão, praga exótica que invadiu o território brasileiro e causou grandes perdas nas principais culturas de rendimento.

Nesse sentido, a tecnologia ajudará o Brasil a economizar 28 bilhões de reais em 2021 e evitar 100 milhões de toneladas de emissões de dióxido de carbono ao evitar o uso de nitrogênio no petróleo.

Sobre o impacto do conflito na Europa na produção do país, Moretti acredita que, se os ataques continuarem, serão mais severos após as safras de verão, que são semeadas em outubro. É difícil fazer qualquer previsão. Vai depender do nível de conflito.

Buscando outros fornecedores para substituir Rússia e Belarus, como Canadá, Irã e Catar, o governo colocará os fertilizantes em prática.

Os bioinsumos podem ser uma saída

O Brasil deve se tornar em breve um grande destaque no mundo inteiro, quando falamos de bioinsumos. O crescimento na utilização desses produtos é de cerca de 28% ao ano no Brasil. Em 2020, foram registrados 95 defensivos de baixo risco, entre produtos biológicos, microbianos, semioquímicos, bioquímicos, extratos vegetais, reguladores de crescimento.

Inclusive, um Projeto de Lei (PL) foi criado buscando regulamentar essa produção no Brasil e a implementação do Programa Nacional de Bioinsumos pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) vem fomentando o uso de produtos biológicos e demais bioinsumos no campo.

Assim, é possível que esse destaque do brasil por um modelo sustentável e que vem tendo sucesso, pode seguir também para o caminho dos fertilizantes em um futuro próximo.

Cinco Frentes de Pesquisa

Há outras atividades na agenda de pesquisa da Embrapa e instituições parceiras para ajudar a reduzir a dependência do Brasil de fertilizantes importados. Nossa meta é reduzir a demanda por fertilizantes importados em 25% até 2030. O Brasil não tem varinha mágica para mudar isso da noite para o dia”, disse o presidente da Associação Agroindustrial Brasileira, por isso, segundo ele, a empresa prioriza cinco linhas de pesquisa: biofertilizantes, fertilizantes minerais orgânicos, fertilizantes nanoestruturados, agricultura de precisão e condicionador de solo de farinha de pedra.

Além da iniciativa em parceria com a Embrapa, o governo federal vem desenvolvendo estratégias de fomento e financiamento para aumentar a produção de insumos biológicos, fertilizantes minerais orgânicos, nanotecnologia e agricultura digital no âmbito do Programa Nacional de Adubos. A agricultura brasileira é forte, vai continuar forte, e temos que dar alternativas para mantê-la funcionando.

Atualmente, o Brasil consome cerca de 8,5% dos fertilizantes do mundo, ocupando o quarto lugar; China, Índia e Estados Unidos lideram a lista. Esses países também são os maiores produtores de fertilizantes do mundo, com exceção do Brasil, que importa cerca de 89% das 43 milhões de toneladas consumidas na produção agrícola em 2021.

No Brasil, soja, milho e cana-de-açúcar respondem por 73% do consumo de fertilizantes do país. A Rússia é responsável pelo fornecimento de 25% dos fertilizantes do Brasil. Juntamente com a Bielorrússia, eles fornecem mais de 50% do potássio total que os agricultores brasileiros consomem a cada ano.

(Conteúdo exclusivo especial – proibida a reprodução sem citar fonte “MT Econômico” e link da matéria)

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