Impacto nas commodities

Efeito coronavírus pode baratear o custo do combustível no Brasil

Para isso acontecer, no entanto, a queda do real em relação ao dólar não pode ser tão forte
Sexta-feira 31 de Janeiro de 2020
MT Econômico/Gazeta do Povo
Efeito coronavírus pode baratear o custo do combustível no Brasil

O coronavírus está deixando um alerta na economia mundial e diversos países podem ser afetados. Entre os efeitos negativos de mortes, queda na bolsa, desaceleração nas exportações entre outros, pode haver um pequeno sinal de melhora no preço dos combustíveis no Brasil.

Pode haver queda no preços das commodities barateando alguns produtos. Um exemplo: se o recuo das cotações do petróleo persistir, combustíveis podem ficar mais baratos no Brasil, segundo Juan Jensen, da 4E Consultoria. "Até agora, o petróleo está caindo mais que o real, o que em tese permite combustíveis mais baratos aqui", disse o analista.

Para isso acontecer, no entanto, a queda do real em relação ao dólar não pode ser tão forte, pois a alta da moeda norte-americana atua na outra direção, inflando o preço de bens negociados no mercado internacional."

Primeira reação ao coronavírus foi no mercado financeiro

Na tentativa de conter o alastramento do vírus, a China adotou medidas drásticas para diminuir o fluxo de pessoas nas ruas e deslocamentos pelo continente asiático. As bolsas de valores globais começaram a semana em queda. O preço do barril de petróleo caiu abaixo de US$ 60 pela primeira vez em quase três meses. O dólar se valorizou em relação ao real. E até as projeções para a Selic – a taxa básica de juros da economia brasileira – foram revistas.

Na segunda-feira (27), a Organização Mundial de Saúde (OMS) admitiu que errou na sua avaliação inicial sobre os efeitos do coronavírus. A organização passou a classificar o risco do novo vírus como “elevado”, e não mais “moderado”. A OMS disse também que a doença ainda não se trata de uma emergência de saúde global, mas que “pode vir a ser”. As últimas foram a gripe suína (H1N1), o vírus zika e o ebola.

A reclassificação do coronavíus e também o aumento do número de mortos e infectados dispararam o alarme da volatilidade global e aversão ao risco. O primeiro reflexo foi no mercado financeiro, e as bolsas mundo afora começar a semana em queda. Um movimento que, grosso modo, refletiu o temor de que a atividade econômica na China e no mundo todo se desacelere ainda mais que o esperado.

No Brasil, o Ibovespa fechou a segunda-feira (27) com queda de 3,29%, a maior baixa em um dia desde março de 2019. Ontem (30) fechou em 115.828 pontos, lembrando que no dia 22 de janeiro atingiu pouco mais de 118.000 pontos.

Entre as principais empresas listadas afetadas pela queda estão as siderúrgicas Gerdau e CSN, que exportam para a China, e a Petrobras, que depende do preço do barril de petróleo. A Vale também viu seu valor de mercado encolher essa semana. O pico do estresse permanece até o momento.

O coronavírus afetou o dólar e as projeções para a taxa básica de juros (Selic), e ainda pode pressionar a inflação. A moeda americana fechou nessa quinta-feira (30) a R$ 4,25, maior patamar desde 2 de dezembro. E se antes o mercado se concentrava na aposta de que a Selic se manteria em 4,5%, já há quem preveja um corte de 0,25 ponto porcentual em breve.

“Os efeitos não se limitam às bolsas e às commodities, como também afetando as projeções para a nossa Selic – haja vista que ontem o mercado elevou para mais de 80% a chance de corte de 25 pontos-base no próximo Copom”, disse Thiago Salomão, analista da Rico Investimentos, em relatório. O Banco Central decidirá na próxima quarta (5/2) se mantém ou muda a Selic.

Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo, pontua a aversão ao risco no mercado acaba gerando inflação no ativo livre de risco – títulos do tesouro americano e, consequentemente, o dólar. “Com o dólar muito alto, você acaba ‘importando’ inflação. Muitos produtos que consumimos são negociados em dólar, o que acaba encarecendo o produto final e vai impactar a inflação no curto prazo”, analisa.

Entre as ações para reduzir os efeitos na economia, a China prolongou o feriado de seu Ano Novo, que inicialmente terminaria na quinta (31), mas agora vai até 3 de fevereiro. Com isso, as Bolsas de Xangai e Shenzen só voltam a funcionar na terça (4/2).

Além de prolongar o feriado, Hong Kong, cidade autônoma localizada no sudeste da China, fechou ferrovias e balsas e suspendeu ônibus de turismo entre a cidade e o continente chinês. Os voos para a China continental também foram reduzidos pela metade. A cidade também não está mais emitindo vistos individuais.

Segundo o Centro de Controle de Doenças da China, é preciso encontrar um equilíbrio entre controlar a propagação da doença e limitar os impactos econômicos do surto do vírus.

"As medidas na China são para evitar que o processo de contaminação se alastre. A consequência, ao limitar fluxo de pessoas, estender o feriado, acaba tendo um impacto econômico imediato por lá. Mas isso é para evitar um dano muito maior lá na frente, que ocorreria ao deixar as pessoas circularem livremente, e o vírus se propagar", diz o economista Juan Jensen, sócio da 4E Consultoria e professor do Insper.

Coronavírus: o que esperar daqui para frente

Thiago Salomão, analista da Rico Investimentos, diz que é difícil projetar como o surto pode afetar a economia daqui para frente, em especial no longo prazo. “Não existe uma 'regra' para como o mercado reagirá às epidemias e o motivo é simples: existem outras diversas variáveis que afetarão”, escreveu em relatório. Mas completou dizendo que elas “certamente afetarão o mercado no curto prazo”.

Economista da corretora Nova Futura, Pedro Paulo Silveira afirma que, caso o surto se espalhe ainda mais, a economia chinesa deve ter uma desaceleração, afetando a economia global e as exportações brasileiras. A China é o principal destino das exportações brasileiras.

"Supondo que aumente a amplitude da contaminação, levando à redução dos fluxos de pessoas e mercadorias da China com o resto do mundo, a economia chinesa teria uma desaceleração em sua taxa de crescimento. Se ocorrer, isso impactaria fortemente as exportações do Brasil, naquilo que o país tem de mais dinâmico hoje, que são as commodities”, afirmou em entrevista à Gazeta do Povo.

Qualquer coisa que o Brasil já vende ou possa vir a vender – de commodities, passando por tecnologia e até mesmo o petróleo – pode ser impactada, diz Rodrigo Franchini, da Monte Bravo.

“As empresas daqui que exportam para a China terão um mercado menor para exportar, e essas empresas tendem a não crescer. Se as empresas não crescem, o Brasil não cresce, não gera renda, emprego”, avalia.

Além das empresas ligadas ao setor de commodities, empresas de aviação, serviços de viagens e itens de luxo estão entre os setores que podem ser impactados negativamente, caso o surto se prolongue, afirma o analista Thiago Salomão.

Em relatório enviado na manhã desta quarta (29), a equipe econômica do Bradesco afirma que "a paralisação de grande parte das atividades na China (e em algumas regiões na Ásia) posterga ou suaviza a recuperação esperada para este início de ano" na economia brasileira. "Em outros episódios de epidemias, o impacto tende a ser pontual e depois a economia acaba retomando nos trimestres à frente", aponta o banco.

Falando em combustível, o etanol tem aumentado nos últimos meses em Mato Grosso. Veja mais na publicação anterior do MT Econômico neste link.


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