Fronteiras Econômicas MT

Estratégia chinesa pode comprometer agronegócio de Mato Grosso nos próximos anos

Entre as principais preocupações apresentadas no evento existe o fato de Mato Grosso ter concentrado sua economia na exportação agrícola nos últimos anos
Terça-feira 07 de Maio de 2019
Redação MT Econômico
Estratégia chinesa pode comprometer agronegócio de Mato Grosso nos próximos anos

A Assembleia Legislativa debateu ontem (6), no auditório Milton Figueiredo, o tema “Fronteiras Econômicas de Mato Grosso”, que tratou sobre a necessidade de um novo olhar para o desenvolvimento econômico do estado, mais voltado para a industrialização do que apenas na exportação de commodities agrícolas. O evento reuniu especialistas, representantes do poder público e entidades de classe, empresários e professores. O MT Econômico esteve presente e traz para seus leitores o que aconteceu de mais relevante no debate e alguns dados complementares.

Entre as principais preocupações apresentadas no evento existe o fato de Mato Grosso ter concentrado sua economia na exportação agrícola nos últimos anos, sendo que o mercado mundial está tendo uma nova dinâmica que pode comprometer o futuro do agronegócio mato-grossense e consequentemente, a economia do estado.

Em 2018, Mato Grosso fechou com o melhor saldo da balança comercial de toda a série histórica, medida pelo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic), desde 2007. De janeiro a dezembro de 2018, as exportações somaram US$ 16,171 bilhões, o maior valor dos últimos 11 anos. As importações não bateram recorde e somaram US$ 1,563 bilhão, o que gerou um superávit comercial de US$ 14,608 bilhões, o maior do período analisado. Veja mais sobre esses dados neste link.

Na lista de clientes do Estado, a China segue como o principal comprador. Em 2017, o país comprou US$ 4,74 bilhões, saltando para US$ 5,42 bilhões no ano passado, avanço de 14,3%. Com o valor, a participação desse mercado nas exportações cresceu de 32,2% para 33,5%. O Irã se firmou como 2º principal comprador, com negócios de US$ 1,22 bilhão, alta de 35,7% sobre 2017 (US$ 901,7 milhões) e participação de 7,57%. Em seguida, se destacam os Países Baixos (Holanda), que compraram US$ 1 bilhão de Mato Grosso, alta de 8,1% sobre 2017 (US$ 926,6 milhões).

Embora Mato Grosso tenha sido favorecido no ano passado pela guerra comercial entre EUA e China e estar a cada ano aumentando suas exportações, isso não garante que no futuro possa continuar nesse ritmo, até porque só haverá crescimento se o mercado internacional, em especial a China, continuar comprando de forma crescente do Brasil e do nosso estado.

Os chineses estão usando seu poder econômico para expandir sua influência pelo mundo e criar novas alternativas de negócios. A Nova Rota da Seda que foi lançada em 2013 vem tomando proporções cada vez maiores. A China quer otimizar o tráfego rodoviário, marítimo e ferroviário em vários países e melhorar seu comércio com a Europa e África.

Em fevereiro deste ano, o governo chinês anunciou o maior plano de investimentos da história da humanidade, totalizando 5 trilhões de dólares, ou seja três vezes mais do que o PIB do Brasil.

Esse dinheiro será investido em 65 países, que juntos concentram 63% da população global, ao longo dos próximos 40 anos. O objetivo da China é se tornar a nova potência mundial, e para isso precisa se tornar o maior player do comércio internacional. O mega projeto inclui portos, rodovias, ferrovias, gasodutos, oleodutos e centros de distribuição, tudo para favorecer as exportações chinesas.

A China está com a relação estremecida com os Estados Unidos. A guerra comercial entre os dois países mostra que os chineses não suportam mais a imposição dos americanos com aumento de taxações comerciais. O país asiático está pensando numa estratégia mais eficaz para se tornar a maior potência no mundo e dominar as regras do jogo.

É disso que a reportagem do MT Econômico está falando, com relação à dependência de Mato Grosso excessiva no agronegócio e pouco desenvolvimento industrial.

Com isso, é necessário cada vez mais que seja revisado o modelo econômico do Estado, hoje baseado na produção e exportação agrícola. Na opinião dos especialistas do evento é necessário pensar e agir para que industrialização tenha expansão e possa gerar mais desenvolvimento econômico e social.

“Não faz sentido o estado produzir tanto e não industrializar praticamente nada”, disse o professor Alfredo da Mota Menezes.

“É preciso também parar de depender somente da Lei Kandir e colocar para funcionar a ZPE de Cáceres, pois inúmeros benefícios podem ser obtidos como isenção fiscal na importação, redução de alíquotas, facilidade na exportação, entre outros”, completa Alfredo.

“A vulnerabilidade da exportação de commodities de Mato Grosso é um risco que tem que ser avaliado. A comercialização hoje é vertiginosa, mas resta saber se o mercado internacional vai querer comprar nossos produtos no futuro”, opinou o senador Wellington Fagundes.

“Temos que exportar a lata do óleo de soja e não apenas a soja. Temos todos os elementos para a industrialização do estado, incluindo a matéria-prima, mão-de-obra, expertise e ainda um governador que vem do setor industrial”, disse o deputado estadual Wilson Santos.

"Falta uma política de desenvolvimento agroindustrial no estado. Temos também que trazer indústrias de máquinas agrícolas e tratores para cá, pois somos grandes consumidores desse tipo de produto, mas compramos isso fora do estado” disse o deputado federal Neri Geller.

O superintendente da Federação das Indústrias de Mato Grosso – Fiemt, Mauro Santos ressaltou que a indústria brasileira e mato-grossense está passando por um momento delicado de retração da produção, por conta do atual momento econômico.

“Para o cenário melhorar é necessário que tenha urgência na aprovação da reforma da previdência, reforma tributária e reequilíbrio das contas públicas, para que aconteçam os investimentos em infraestrutura e empresariais” disse Mauro ao MT Econômico.

Sobre a industrialização de Mato Grosso, o processo passa pela agroindústria, na opinião do representante da Fiemt.

“Se pegarmos 50% daquilo que é exportado, que gera hoje cerca de 3 bilhões de riqueza, de certa forma concentrada, podemos saltar para uma geração de valor de 9 bilhões de forma mais pulverizada e com maior geração de emprego, renda e arrecadação de tributos” comenta.

Para industrializar o milho e outras commodities, por exemplo, o estado precisa ter uma política de incentivo atrativa que vá além do Prodeic, segundo Mauro Santos.

“Temos que oferecer energia de qualidade, mão de obra qualificada e uma séria de ações para atrair os empresários para o estado. Atualmente existem muitas dificuldades. Temos que explicar para aqueles que querem investir em Mato Grosso sobre os tributos da energia elétrica, que são 47% mais caros que o nosso estado vizinho, Mato Grosso do Sul. Caso esse investidor queira atuar no setor de base florestal, temos que falar que as nossas taxas, tributos e contribuições são 200% mais caras do que estados como Pará, Rondônia e Acre. Portanto, é preciso mudar nossa política tributária, reduzir impostos, ter uma política de incentivo consistente, para que a gente consiga atrair novos empreendimentos, novas indústrias para Mato Grosso, gerando com isso, todo um efeito positivo de geração de emprego, renda e aumento da arrecadação no estado”, conclui o superintendente da Fiemt.

Marechal Rondon

O evento também contou com homenagem a Marechal Cândido Rondon, nascido em 5 de maio de 1865. O conhecido patrono das telecomunicações teve um importante papel no desenvolvimento de Mato Grosso, segundo lembrou a deputada estadual Janaína Riva, presidente em exercício da Assembleia Legislativa.

“Marechal Rondon dominou Mato Grosso e o mundo como um todo, tamanha a sua inteligência e sabedoria em logística e integração da Amazônia e Mato Grosso. Entre as suas inúmeras conquistas consta a implantação de telégrafos no leste/sul do Mato Grosso, o que possibilitou a interação entre os estados de Minas Gerais, Goiás e Rio de Janeiro com a região. Para alguém entrar em contato com São Paulo, por exemplo, era preciso navegar o Atlântico, passar pelo Rio da Prata e subir o Rio Paraguai. Não existiam estradas nem outra forma de comunicação rápida. O processo perdurou entre os anos de 1892 e 1906”, lembrou Janaína.

De 1900 a 1906 foram implantados 1746 quilômetros de cabos, conectando 17 estações ao longo das cidades de Cuiabá a Cáceres. Com isso, o sul de Mato Grosso ficou ligado ao Brasil. No leste do estado foram 517 quilômetros de cabos entre os municípios de Cuiabá até o Araguaia, segundo relato histórico.

E onde eram implantadas as linhas telegráficas as estradas também eram construídas. Com esse fato, pode-se dizer que Rondon também foi um grande desbravador da logística em Mato Grosso.


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