Transformação

Coluna Especial: O automóvel, uma utopia? Transformação do início do século XX

Por trás dessa vontade de “modernizar”, os meios de transporte são de grande relevância e a questão tecnológica é sem dúvida preponderante
Quarta-feira 25 de Setembro de 2019
Ricardo J. J. Laub Jr/MT Econômico
Coluna Especial: O automóvel, uma utopia? Transformação do início do século XX

Com o surgimento do automóvel na primeira década do século XX em Cuiabá, constatou-se sua enorme capacidade de perdurar como meio de transporte inserido na cidade, provocando grandes transformações na mobilidade urbana. 

Sua perspectiva de modo de vida moderno, associada com os ideais de progresso e desenvolvimento e a relação desses valores fortemente fixados aos objetivos da sociedade industrial estão entre os principais motivos para seu triunfo.

A partir de então, houveram reconfigurações simbólicas que nos oferece elementos para constatarmos os motivos do empenho e da necessidade, por parte de uma parcela da população da cidade, uma elite econômica e intelectual, em se efetivar uma “ruptura” gradual com um passado subitamente indesejado, donde se implicará, a experiência do novo, sobrepondo-se a tudo que é considerado velho ou antigo.

Todavia, nós sabemos que o mencionado movimento de modernização não acontece neste período especificamente. A ideia de modernização já circulava pelos meios sociais, porém na prática a cidade vivenciava um momento de crise econômica e revalorização de sua cultura. Não havia nenhum sinal de crescimento econômico, muito pelo contrário, a economia se desenvolvia muito mal com o início de um processo de escassez na prospecção do ouro durante o fim do século XIX, e do “marasmo econômico que se lhe segue, durante as quatro primeiras décadas” do século XX, no período republicano, em especial a partir de 1920, se comparado às épocas anteriores, cenário que não impedia obviamente uma valorização e revalorização das tradições cuiabanas por uma parte da população, levando-se em conta que as questões simbólicas estão sempre atuando em defesa de uma cultura, mesmo diante de pressões e impactos do processo de expansão do capitalismo, no qual o automóvel é símbolo.

Em 16 de fevereiro de 1913 o jornal “O Matto Grosso” publica artigo destacando o lançamento do “Album de Matto Grosso” como uma “obra de propaganda”, “um tratado científico” apresentando a região como um local de grandes possibilidades para investimentos que, “conseguindo a introcdução de capitaes e braços sufficientes, avançará rapidamente o seu progresso ora lento”

O propósito da confecção do álbum era desfazer conceitos desfavoráveis a respeito do estado de Mato Grosso com relação a sua capacidade econômica e, desta maneira, chamar a atenção de investidores e promover a vinda de mão de obra de todas as partes para atuar na região. 

Dá para se perceber o conceito ideológico apropriado, ao de estagnação e lentidão em relação ao progresso local. A cidade, ou uma parcela dela, desejava transformações, ou seja, a superação de uma condição de atraso que não estava mais adequada a uma capital como Cuiabá, porém, a narrativa está carregada da ideia de progresso da sociedade, e fazer a comunicação da capital mato-grossense e o mundo eram fundamentais para o sucesso da cidade: “A questão da distância e da falta de transportes na economia mato-grossense, sempre foram temas utilizados para tentar justificar a falta de progresso econômico em Mato Grosso”.

Na edição de 10 de junho de 1923, o jornal “A Cruz” publica artigo de capa fazendo duras críticas à câmara federal por vetar a continuidade da construção da “Estrada de Ferro Noroeste de Matto Grosso”. No artigo, destaca o automóvel como uma “utopia”, a condição de esquecimento por parte do governo federal para com a cidade e o estado, bem como a utilização simbólica do termo “tempos modernos”, para designar a necessidade de transformações que levariam Mato Grosso e, consequentemente, a capital Cuiabá para uma condição de progresso.

Por trás dessa vontade de “modernizar”, os meios de transporte são de grande relevância e a questão tecnológica é sem dúvida preponderante. Este processo em busca de transformações para a cidade e para a sociedade é sustentado pela condição dinâmica e relativa de fatores intervenientes ao cotidiano das cidades ligados à ideia de progresso e que vão surgir, naquele momento, com as novas formas de tecnologia, incluindo os carros, numa relação direta com o crescente processo de industrialização que atingia o mundo ocidental e carregava junto o modelo para a modernização de quase todos os países da América do Sul.

Essas demandas que deram sentido às transformações, tendo o automóvel como artefato e símbolo impulsionador deste sonho de mudança que teve início na cidade de Cuiabá a partir de 1919, como uma condição inicial de modernização da cidade, por meio das adequações para o atendimento das questões dos transportes em Cuiabá inauguradas no evento de comemoração do bicentenário da cidade. De qualquer forma, entre 1919 e 1937 Cuiabá passou por reformas urbanas que, devemos deixar claro, não seguiram a voga de outras cidades como a capital federal Rio de Janeiro. 

No ano de 1911 já se discutia a questão da insalubridade e do progresso, relacionada com as vias de transporte. Outra questão sobre os verdadeiros objetivos da inserção do automóvel vai além das demandas da sociedade, se traduz em atender de certa forma a individualidade: o sujeito precisa ter maior velocidade, maior viabilidade de locomoção e de deslocamento.O automóvel tem essa característica complexa e paradoxal, ao mesmo tempo que arrebatava entusiasmos, causava temor e desconfiança, como símbolo máximo da tecnologia, representante de um modelo de desenvolvimento para o progresso. A elite discursava o incremento da indústria do transporte que proporcionariam o desenvolvimento das demais indústrias.

A transformação como erosão das cidades ocasionada pelo automóvel provoca uma série de consequências tão conhecidas, ocorre como se fossem garfadas – primeiro, em pequenas porções, depois uma grande garfada. Por causa do congestionamento de veículos alarga?se uma rua aqui, outra é retificada ali, uma avenida larga é transformada em via de mão única, instalam?se sistemas de sincronização de semáforos para o trânsito fluir mais rápido, duplicam?se pontes quando sua capacidade se esgota, abre?se uma via expressa acolá e por fim uma malha de vias expressas. Cada vez mais solo vira estacionamento, para acomodar a um número sempre crescente de automóveis quando eles não estão sendo usados.

O automóvel provoca intervenções na cidade, em seu benefício e em benefício de uma proposta capitalista. Esta é uma característica dessa revolução que se apresenta muitas vezes imperceptível. Apesar de ser uma transição pacífica em termos de resistência direta, ela é impositiva ao cotidiano. O “desenvolvimento técnico redefine, a cada passo, as necessidades sociais” e por isso é impactante, contínua e demanda um sentido de urgência imperativa. Cuiabá estava inserida nessa condição, pois além de melhoria nos aspectos urbanos e de saneamento, havia a demanda por novos meios de transporte que viessem a facilitar a vida da população, transmitindo aos visitantes e viajantes a imagem de uma cidade próspera. O passado não deixou de existir no presente ao vermos a cidade sendo feita para os automóveis a partir do início do século XX, quanto aos pedestres loucos por essas maquinas modernas, pela ideia de progresso e modernidade, sem perceber, cederam a ultrapassagem da tradição, talvez somente assim, lentamente, a cidade é possível de ser reconstruída todos os dias.

Coluna Especial sobre Setor Automotivo

Colunista MT Econômico: Ricardo J. J. Laub Jr.

Historiador e Empreendedor graduado no Curso de Licenciatura Plena em História na UFMT- Universidade Federal de Mato Grosso e em EMPREENDEDORISMO (2005) pelas Faculdades ICE. Com Mestrado em História Contemporânea pela UFMT/PPGHIS. MBA - Master in Business Administration em Gestão de Pessoas, MBA - Master in Business Administration em Gestão Empresarial e MBA - Master in Business Administration em Gestão de Marketing e Negócios. Professor na faculdade, Estácio de Sá - MT, Invest - Instituto de educação superior. Presidente da AGENCIAUTO/MT- Associação do Revendedores de Veículos do Estado de Mato Grosso, com larga experiência profissional na elaboração de planos de negócio voltados para o ramo automobilístico, gerenciamento comercial, administrativo, controle de estoque, avaliação de veículos, processos operacionais e estratégicos para empresas do setor automotivo e gestão de pessoas no âmbito organizacional.


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