História do Automóvel

Opinião: 100 anos de automóveis pelas ruas cuiabanas

Empreendedor com a visão voltada para o futuro, Rondon teve relação direta com o primeiro registro da passagem de um automóvel por Mato Grosso
Sexta-feira 29 de Novembro de 2019
Ricardo J. J. Laub Jr./MT Econômico
Opinião: 100 anos de automóveis pelas ruas cuiabanas

Em 2019 Cuiabá completou 300 anos de sua fundação, e para os aficionados pelos carros, os 100 anos do registro demarcatório da presença do automóvel à sociedade cuiabana. Não obstante, sabemos que o primeiro automóvel de fato rodou por Mato Grosso, mais exatamente no Sul do Estado, no ano de 1903, e em 1910 na região de Cáceres, introduzido pela Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas do Mato Grosso ao Amazonas, denominada posteriormente “Comissão Rondon”. Davam suporte para o transporte dos representantes da comissão, naturalmente com objetivos federais de “estender maior presença do governo central nas distantes províncias do Amazonas e do Acre”, proteger as divisas oeste brasileiras, além da ocupação e o desenvolvimento das regiões mais isoladas[1]. Neste caso, o automóvel, não é exatamente um símbolo, era nada mais que um meio de se transportar pessoas.

Empreendedor com a visão voltada para o futuro, Rondon teve relação direta com o primeiro registro da passagem de um automóvel por Mato Grosso, fato ocorrido em 1903, poucos anos depois do primeiro automóvel aportar no Brasil. Forma dois registros fotográficos[2], um deles inserido na publicação do Relatório dos Trabalhos Realizados de 1900 a 1906 pela Comissão de Linhas Telegráficas do Estado de Mato Grosso, apresentado às autoridades do Ministério da Guerra, pelo então chefe da Comissão, Major engenheiro Cândido Mariano da Silva Rondon, o nosso marechal.

Imagem 1: Equipe técnica em estabelecimento na região de Urucum/MT (1903), durante os trabalhos realizados de 1900 a 1906 pelo Major de Eng. Candido Mariano da Silva Rondon, como chefe da Comissão, das Linhas Telegráficas do Estado de Mato Grosso.

 

O retrato mostra a passagem dos automóveis pelo Sul de Mato Grosso no ano de 1903, durante o projeto de expansão do governo federal, ao abrir estradas e linhas telegráficas.

Sete anos mais tarde, em 1910, durante os trabalhos da Comissão Rondon na região do “Guaporé”, das cidades de Cáceres e Vila Bela da Santíssima Trindade, é retratado um dos três caminhões Fiat[3] desembarcados no porto de Cáceres, utilizado na tarefa de instalação das linhas telegráficas e abertura de estradas de rodagens para o trânsito específico de automóveis.Ao abrir estradas para a fronteira oeste brasileira durante a expedição do projeto da construção da linha telegráfica tronco e abertura de estradas de abastecimento (1907-1910), em dezembro de 1908, Cândido Mariano da Silva Rondon registra a utilização dos automóveis para o bem de sua empreitada, e relata: “Fiz a encommenda de um automóvel systema Fiat, Typo caminhão, que pudesse trafegar nos chapadões, onde os muares e bois não resistiam a um mez de serviço”[4].

 

Imagem 2: Foto panorâmica do caminhão nos campos Mato-grossenses no ano de 1910, acompanhando a Missão Rondon.

 

Depois, 2 anos mais tarde, em 1912, durante a inauguração da Estrada entre Cuiabá e Varzea Grande, o automóvel é apresentado, desta vez, inserido ao meio social e cultural da urbe, não apenas como ferramenta, disposto ao espaço geográfico sem destaque especial, como ocorrido entre 1903 e 1910. Desta vez uma apresentação cheia de simbologia voltada para a ideia de transformação e mudança no contexto do evento da festividade.O automóvel, como artefato tecnológico, impõe uma “rede” de contingências, “formas de organização que possibilitam a produção do conhecimento e a sua mobilização com base em alguns parâmetros que se tornam coincidentes em todos os lugares”[5]. Como prova disso, no dia seguinte à inauguração da estrada entre Cuiabá e Várzea Grande, o periódico “O Debate” publica artigo relacionando o automóvel “Orion” à estrada e ao desenvolvimento dos transportes no Estado de Mato Grosso.

Exatamente no dia 16 de abril de 1912, o “pesado caminhão de rodas maciças”, marca Orion, de fabricação Suíça, desfilou como componente importante da solenidade de inauguração da estrada de rodagem entre Cuiabá e Várzea Grande[6].

 

Imagem 3: Caminhão “Orion”, de propriedade do sr. Arthur Borges, fotografado no dia da inauguração da estrada de Várzea Grande. Na Carroceria estão os srs. Presidente do Estado, Dr. Costa Marques, o dono do caminhão e convidados.

 

Nele o proprietário do “Orion” e o então Presidente do Estado, Costa Marques, além alguns convidados, posaram orgulhosos na sua cabine e sobre sua carroceria, cercados por um grupo de cavaleiros.

 

Imagem 4: Caminhão “Orion”, de propriedade do Sr. Arthur Borges, fotografado no dia da inauguração da estrada de várzea Grande. Na Carroceria estão os srs. Presidente do Estado, Dr. Costa Marques, o dono do caminhão e convidados.

 

Esse processo de propagar o automóvel é uma das formas de se estabelecer um movimento intencional para promover a sua introdução aos cenários de Cuiabá, que ocorreria outras vezes, em outros momentos marcantes para a história da cidade, até ser de fato, muito mais tarde, assimilado pelo imaginário da população como um artefato indispensável para o desenvolvimento da cidade, estabelecendo uma ordem dependente. Em 2012 fizeram-se 100 anos da utilização do automóvel para o trabalho, como ferramenta e artefato tecnológico interferente no modo de vida produtivo local. 

Porém, apesar do peso da simbologia, observamos que o ano de 1912, se comparado a apresentação do automóvel no ano de 1919 por Dom Aquino, não encerra de fato uma data de sua apresentação oficial a cidade de Cuiabá como o marco inicial de um processo de apropriação e representações incentivadoras de novas práticas sociais.

O automóvel, a partir de 1912, mais evidentemente passa a ser propositalmente difundido em Cuiabá como em outras capitais brasileiras, impondo uma reavaliação da mobilidade urbana e iniciando um fluxo de ações intencionais para aliar um modelo de modernidade que infligem uma série de trocas sociais, comerciais, culturais, administrativas, educacionais, entre outras. O ano de 1919, escolhido por nós como o marco inicial da chegada do automóvel em Cuiabá, foi muito marcante e simbólico, ao se apresentá-lo no dia do aniversário da cidade, 08 de abril, durante o governo de um dos primeiros automobilistas cuiabanos, Dom Aquino Correa da Costa. 

Este é o momento em que o automóvel inicia sua projeção como novo elemento inserido ao cotidiano da capital mato-grossense, dentre outras máquinas e invenções da ciência, se destacando como artefato tecnológico. Após a aprovação da remoção dos bondes, o serviço de transporte ultrapassado é substituído pelo de automóveis de aluguel, justamente no dia 08 de abril de 1919, e inaugurado na comemoração do bicentenário da cidade. Cinco anos depois, em 1924, já rodavam em Cuiabá sete auto-ônibus, “em 1927 Cuiabá tinha 93 automóveis e 51 caminhões”[7]. Ainda nas comemorações do bicentenário da cidade, Dom Aquino assinaria mais um contrato com os irmãos Dorsa, para pavimentar algumas ruas do centro da cidade de Cuiabá e consertar calçadas, obras que dariam condições de trânsito do automóvel pela cidade.

Entre abril e novembro de 1919 as ruas começam a ser macadamizadas com a pedra cristal, e, depois, por um processo mais avançado, vai se utilizar a “pedra canga”[8]

Todos esses eventos marcam a transição definitiva de uma prática cotidiana de transporte urbano para outra, com características modernizadoras, um modo de se locomover que, de fato há muito desejado, se instalando na capital de Mato Grosso.A comemoração do bicentenário da cidade durante o governo de Dom Aquino esteve carregada de simbolismos de modernização, termo muito utilizado pela imprensa da época. 

Sem dúvida a participação de Dom Aquino nesse processo de modernização da cidade envolvendo o automóvel, pesa pela altura do cargo que ocupava, Presidente do Estado de Mato Grosso, por sua capacidade de influenciar e aglutinar seguidores, sendo ele uma personalidade muito respeitada por parte das elites locais, principalmente as elites econômicas. Reconhecidamente celebrado como magnifico orador, escritor e poeta, representava um modelo de conduta a ser seguido[9]. Características pessoais que fizeram dele, por ser um efetivo usuário do automóvel, um dos principais precursores e representantes do processo de propagação e introdução do automóvel em Mato Grosso.

Dom Aquino realizava caçadas com este automóvel pelas cercanias da capital, provavelmente na região da Chapada dos Guimarães (Imagem 5)[10] onde foi retratado, em pé no interior do carro, com um tamanduá bandeira colocado em cima do capô do automóvel[11].

Imagem 52: Dom Aquino Correa, presidente do Estado de Mato Grosso em caçada pelas cercanias da capital do Estado, provavelmente na região de Chapada dos Guimarães, com um tamanduá bandeira colocado em cima do capô do automóvel, o Fiat tipo 52 – Vermelho, o primeiro automóvel a chegar em Cuiabá importado pela casa Dorsa (1920).

 

De acordo com Lenine Póvoas[12], foi durante o governo de Dom Aquino (1918 – 1922)o período de grande avanço e tendo ele sido articulador principal para a definitiva introdução do automóvel a cidade de Cuiabá.

REFERÊNCIAS:

FONTES:

RELATÓRIOS, ALBUNS E OUTROS:

Fonte: CATÁLOGO DIGITAL: ACERVO COMISSÃO RONDON – SERVIÇO DE PROTEÇÃO AO ÍNDIO (1890 a 1940) Pasta Relatório Rondon 1906 -  arquivo 02, Comissão Construtora de Linhas Telegráficas do Mato Grosso (1900 a 1906), que foi nomeado: CCLTMT_1900/06: Disponível em: . Acesso: 23/06/2017.

Album Graphico do Estado de Matto Grosso, 1914, pg. 144. Fotógrafo: Luís Leduc.

BIBLIOGRAFIA:

CORREA, Afrânio Estevão. Os automóveis de Cuiabá – Décadas de 20 e 30: histórias contadas com a leveza da crônica. Cuiabá: IHGMT, 1999.

DE LAMONICA FREIRE, Júlio. Por uma poética popular da arquitetura. Cuiabá: Edufmt, 1997.

DOMINGUES, Cesar Machado. A comissão de linhas telegráficas do Mato Grosso ao Amazonas e a integração do Noroeste. In: Anais... XIV Encontro Regional da ANPUH: Memória e Patrimônio, 2010, p. 1-4.

PEDRAÇA, Célio Marcos. O universo ideológico de Dom Aquino e os anos Vargas: entre a igreja e o estado (1930-1945). Cuiabá: EdUMFT, 2010.

PÓVOAS, Lenine Campos. História geral de Mato Grosso. Cuiabá, 1995.

RONDON, Candido Mariano da Silva. Relatório apresentado à Directoria Geral dos Telegraphos e à Divisão Geral de Engenharia (G.5) do Departamento de Guerra. 2º volume, Estudos e Reconhecimento. Rio de Janeiro: Papelaria Quitanda, 1919. p. 35.

SAVIO, Marco Antonio C. R. Café, Futurismo e Automóveis – Tecnologia automotiva e cultura na São Paulo dos anos 20. 2000. 85 f. Relatório de Pesquisa – Primeiro Semestre de 2000. Setor De Pós-Graduação – PUC/SP. São Paulo, 2000. p. 4.

VASCONCELOS, Márcio Galvão. Das quatro patas do cavalo ao motor de vários cavalos:o automóvel em Cuiabá (1918 – 1945). Cuiabá: 2001.

[1]DOMINGUES, Cesar Machado. A comissão de linhas telegráficas do Mato Grosso ao Amazonas e a integração do Noroeste. In: Anais... XIV Encontro Regional da ANPUH: Memória e Patrimônio, 2010, p. 1-4.

[2] Fonte: CATÁLOGO DIGITAL: ACERVO COMISSÃO RONDON – SERVIÇO DE PROTEÇÃO AO ÍNDIO (1890 a 1940) Pasta Relatório Rondon 1906 -  arquivo 02, Comissão Construtora de Linhas Telegráficas do Mato Grosso (1900 a 1906), que foi nomeado: CCLTMT_1900/06: Disponível em: . Acesso: 23/06/2017.

[3] Fonte: ALENCASTRO, Aníbal. Primeiros Automóveis a adentrar em Mato Grosso; 1910. Acervo Particular. Caderno de Fotografias p. 108.

[4]RONDON, Candido Mariano da Silva. Relatório apresentado à Directoria Geral dos Telegraphos e à Divisão Geral de Engenharia (G.5) do Departamento de Guerra. 2º volume, Estudos e Reconhecimento. Rio de Janeiro: Papelaria Quitanda, 1919. p. 35.

[5]SAVIO, op. cit., p. 04.

[6] Fonte: Album Graphico do Estado de Matto Grosso, 1914, pg. 144. Fotógrafo: Luís Leduc.

[7] Ibidem, p. 41.

[8] CORREA, Afrânio Estevão, op. cit., p. 41-42.

[9] PEDRAÇA, Célio Marcos. O universo ideológico de Dom Aquino e os anos Vargas: entre a igreja e o estado (1930-1945). Cuiabá: EdUMFT, 2010. p. 71.

[10] Fonte: CORREA, Afrânio Estevão, 1999, p. 144.

[11] CORREA, Afrânio Estevão, op. cit., p. 25, 31-32.

[12] PÓVOAS, Lenine Campos. História geral de Mato Grosso. Cuiabá, 1995. p. 63.

 

Coluna Especial sobre Setor Automotivo

Colunista MT Econômico: Ricardo J. J. Laub Jr.

Historiador e Empreendedor graduado no Curso de Licenciatura Plena em História na UFMT- Universidade Federal de Mato Grosso e em EMPREENDEDORISMO (2005) pelas Faculdades ICE. Com Mestrado em História Contemporânea pela UFMT/PPGHIS. MBA - Master in Business Administration em Gestão de Pessoas, MBA - Master in Business Administration em Gestão Empresarial e MBA - Master in Business Administration em Gestão de Marketing e Negócios. Professor na faculdade, Estácio de Sá - MT, Invest - Instituto de educação superior. Presidente da AGENCIAUTO/MT- Associação do Revendedores de Veículos do Estado de Mato Grosso, com larga experiência profissional na elaboração de planos de negócio voltados para o ramo automobilístico, gerenciamento comercial, administrativo, controle de estoque, avaliação de veículos, processos operacionais e estratégicos para empresas do setor automotivo e gestão de pessoas no âmbito organizacional.


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