Carros em Cuiabá

Opinião: Anos 80, quem viveu, dirigiu um carro

“[...]dentro do carro. Sobre o trevo. A cem por hora, ó meu amor. Só tens agora os carinhos do motor” [...] diria Roberto Carlos.
Segunda-feira 03 de Fevereiro de 2020
Ricardo Laub
Opinião: Anos 80, quem viveu, dirigiu um carro

Seria positivamente nostálgico e ao mesmo tempo revigorante lembrar Cuiabá dos anos 70 e 80, quando cheguei por estas terras, vindo de São Paulo, ao lembrar a recém inaugurada UFMT, a televisão e suas novelas fascinantes que tiraram os cuiabanos de se sentarem a calçada após um dia cansativo de trabalho. 

Não imaginava que minhas atuais reminiscências, ao lembrar principalmente os carros pelas ruas antigas, me levariam a essa época dourada da cidade. Foi um período de transição política, no dia “11 de outubro de 1977”, Ernesto Geisel, então general e presidente, assinou a Lei que fez dividir Mato Grosso, criando o Estado de Mato Grosso do Sul. Enquanto hoje, alguns regionalistas insatisfeitos, condenam as forças divisionistas, outros conferem a divisão como o motivo para o desenvolvimento das duas regiões. Que seja, não vamos brigar por isso.

Hoje, como um memorialista, indiferente a essa discussão, olho no retrovisor e me vejo ainda adolescente, não tive, graças a inocência da juventude, o tino da importância que naqueles dias se foi dado ao tema, porém, não falta a lembrança, pois a companheira explosão de crescimento que ocorreu nesta época, e a chegada de muitas pessoas, como eu, de outras regiões do Brasil, vindo se estabelecer, por um projeto definido para o desenvolvimento da região oeste brasileira, foram políticas federais as razões que impulsionaram a cidade e depois Mato Grosso como um todo,e daí, eu estava ali, na hora certa. 

E os carros fazem parte dessa memória. Além é claro, não há como esquecer coisas como no antigo estádio Verdão, lotado, Mixto enfrentando o Vasco em noite estrelada, o tal do “Pelezinho me faz um golaço olímpico. Que época!

A avenida “Prainha” ainda tinha o canal a vista, corcéis, opalas e fuscas desfilavam eufóricos entre carroças e ônibus de transporte urbano, os sinais de trânsito já eram comuns, as motocicletas também, a Honda, sem dúvida era a marca mais usada, com a famosa CG 125, ainda circulavam motos importadas como as Suzuki 50 cc, chamadas cinquentinhas, quem as tinha eram pessoas “descoladas”, os carros e as motos sempre conferiram aos indivíduos uma identidade, geralmente moderna. 

Cuiabá era, e ainda é, uma cidade linda, pitoresca, com cultura e valores fortes e bem definidos, sem dúvida, com um pouco de paixão e exagero, como Paris, com vontade de metropolizar. Escapar a tranquilidade e se transformar no que é hoje. Só para ilustrar, o xodó dos anos 70 e 80 eram os carros musculosos, com motores potentes, pesados com uma carroceria arrojada, como o Ford Maverick GT,V8cc, o Dodge Charger RT,V8cc e o Chevrolet Opala SS, 6cc em linha, monstros barulhentos e lindos. 

Cuiabá não era diferente de outras cidades do Brasil, a elite local, e seus filhos, andavam para cima e para baixo desfilando seus carrões, que faziam um tremendo sucesso ao passar pelos pontos de diversão noturna dos jovens da época. 

A “praça do Chopão”, o “Beco batidas”, a “Polar Sorveteria”, nas madrugadas, esses lugares se transformavam em parada obrigatória e estacionamento para essas máquinas e seus condutores, depois de saírem dos bares e boates, como o saudoso e esquecido “Coxixo” e ou a tão famosa boate “Sayonara”com seus shows de celebridades como o “Rei Roberto Carlos”. Foram madrugadas e madrugadas felizes, amigos sentados no muro do “Chopão”, para quem se lembra, eram ainda feitos de canos fixados em pilastras baixas, gastando tempo e vendo essas “belezuras” passarem.

A cidade sempre foi afeita a boemia, com clima quente, com um povo muito cortês e receptivo, fazia a alegria de muita gente, que ao ar livrese divertia nas noites cuiabanas. O Clube Dom Bosco e seus carnavais, que vista aquela da cidade? Que lugar maravilhoso. O “Ninho”, depois “Tom Chopim”, com o anoitecer incrível, com a vista para as luzes do centro da cidade. Foi neste período que andar de carro passou a ser uma necessidade preemente. A cidade crescera e seu domínio estava por trás de um volante.E a cidade sempre foi feita para o trabalho, não podemos deixar de lembrar.

Lojas e revendedoras proliferaram, empreendedores que transformaram o modo de gerir e fazer o comércio, como o saudoso Sango Kuramoti, fundador da Trescinco automóveis, revendedor autorizado VW em Cuiabá e mais recentemente em Várzea Grande, desde 1973, visionário, revolucionou o atendimento, implantou, com diferencial modelo de gestão, uma nova perspectiva para o desenvolvimento do comércio em Mato Grosso, sem dúvida um marco para o crescimento da cidade. 

A nova forma de se dar valor aos consumidores e aos colaboradores, foi marcante, dando impulso a uma cadeia de novas formas de se fazer negócios, não só de carros, mas de todo um complexo de produtos, profissionalizando assim a venda e o serviço. Quem não lembra do “Pablo”, da mesma época, nosso precursor um dos mais antigos, quando se trata de tempo, grande vendedor de carros. Ainda firme na sua loja, 707 veículos, um exemplo de vendedor de seminovos, hoje seu filho no comando, Diogo, quem diria ainda nos servindo com qualidade e segurança.

O carro está indiretamente influenciando a cidade, seja como agente de mobilidade, seja como símbolo do capitalismo, na economia, ou interferente direto no trânsito da população, O carro faz história e apropria a população de conceitos, processos e cultura, o carro é festa, é posição social, é força, é posição financeira, o carro te apresenta e ao mesmo tempo nos mostra, no que somos, e ainda puxa latinhas no seu casamento. Isso é sério?

E hoje em pleno século 21, visitamos nossas memórias, e nos vemos atrás de um volante, indo ao trabalho, que já não existe mais, namorando a pessoa que hoje vive ao seu lado a mais de 30 anos, viajando com a família, como hoje ainda viajamos.

Pode ser que mesmo insatisfeitos com a caótica confusão que, não eles, mas as pessoas que neles transitam, fazem, afinal as máquinas não tomam decisões, e sim os seres humanos, sabemos não podemos viver sem eles. Ainda queremos estar dentro deles. E como viver sem eles? Amanhã quem sabe, quando a sociedade menos individualista estiver em andamento, os carros não sejam mais tão necessários. No passado e no presente, na memória e na vida prática de hoje, precisamos deles. Saudade só se mata com o presente,[...] “dentro do carro. Sobre o trevo. A cem por hora, ó meu amor. Só tens agora os carinhos do motor” [...] diria Roberto Carlos. É verdade. Viva os 200 anos de automóveis pelas ruas cuiabanas.

Coluna Especial MT Econômico - Setor Automotivo

Colunista MT Econômico: Ricardo J. J. Laub Jr.

Historiador e Empreendedor graduado no Curso de Licenciatura Plena em História na UFMT- Universidade Federal de Mato Grosso e em EMPREENDEDORISMO (2005) pelas Faculdades ICE. Com Mestrado em História Contemporânea pela UFMT/PPGHIS. MBA - Master in Business Administration em Gestão de Pessoas, MBA - Master in Business Administration em Gestão Empresarial e MBA - Master in Business Administration em Gestão de Marketing e Negócios. Professor na faculdade, Estácio de Sá - MT, Invest - Instituto de educação superior. Presidente da AGENCIAUTO/MT- Associação do Revendedores de Veículos do Estado de Mato Grosso, com larga experiência profissional na elaboração de planos de negócio voltados para o ramo automobilístico, gerenciamento comercial, administrativo, controle de estoque, avaliação de veículos, processos operacionais e estratégicos para empresas do setor automotivo e gestão de pessoas no âmbito organizacional.


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