História do automóvel MT

Opinião: História do impacto do automóvel em Mato Grosso

A modernização como objeto e todas essas questões da relação cidade, automóvel e modo de vida moderno, são de interesse geral
Segunda-feira 06 de Julho de 2020
MT Econômico/Ricardo Laub
Opinião: História do impacto do automóvel em Mato Grosso

É um marco simbólico de estabelecimento do processo de modernização a instalação da Universidade Federal em Cuiabá, que estabelece esse processo de fato. Haviam dúvidas de que a capital seria contemplada, tendo Campo Grande como destino para esse empreendimento. 

O Jornal O Estado de Mato Grosso, do dia 18 de julho de 1968, publicou artigo dando entender que a capital de Mato grosso não teria a tão sonhada “Universidade Federal”: “em face da pressão do povo campo-grandense, o governo da União estaria propenso a escolher Campo Grande para a sede da UFMT[1]”, Porém, contrariando todas as expectativas e pressões, a chegada da UFMT a capital mato-grossense[2] se realizou no ano de 1970, no dia, 10 de dezembro, trazendo uma mudança muito grande para a cidade, um salto para o progresso.

A modernização como objeto e todas essas questões da relação cidade, automóvel e modo de vida moderno, são de interesse geral, em especial das pessoas envolvidas com a cadeia produtiva do comércio automotivo em Mato Grosso, que é meu caso. Me vi ainda mais motivado a dar continuidade aos estudos do automóvel em terras mato-grossenses, o meu engajamento pelo tema, por ser representante do setor, me impõe essa obrigação. 

Da frota atual de 2.117.640 veículos que circulam em Mato Grosso[3], Cuiabá tem nas ruas, perto de meio milhão de veículos disputando espaço com os 612.547 habitantes, quase 1 por habitante. Compreender a relação dos envolvidos com o automóvel e os seus efeitos e identificar algumas das causas na prática comercial do carro e oferecer instrumentos aos seus envolvidos, e que também, melhor explique seus impactos dentro dos contextos históricos. 

Como se trata de fenômeno urbano, os impactos gerados pela revolução industrial, pelo surgimento de novas tecnologias como o automóvel, e pelo processo de modo de produção capitalista, ao se abordar a cidade de Cuiabá, o automóvel impõe o desenvolvimento do processo do capitalismo ocorrido no fim do século XIX e início do XX, resultando no “fenômeno do crescimento urbano, associado e ao mesmo tempo, ao processo de industrialização e, juntamente com o deslocamento de grandes contingentes populacionais[4]

O automóvel é o símbolo máximo desse processo. Atingindo o cotidiano de Cuiabá, que tinha sua economia baseada no extrativismo e na pecuária, ainda que também, parte importante da sociedade local, achava-se, no início do século XX, temerosa diante da possibilidade de sucumbir ao patamar de inferioridade aos olhos estrangeiros[5]. É justificável o crescimento pelo interesse em se trazer mais e mais carros, afinal nesse modelo de sociedade moderna são os termos de organização capitalista que definem a hierarquia do trabalho. Às posições objetivamente superiores e inferiores, corresponde uma estrutura de remunerações, as quais, por sua vez, dão acesso à posse da riqueza e à aquisição de bens e serviços de consumo. 

Por outro lado, é a maquinaria capitalista e não a inteligência deste ou daquele empresário que revolucionar permanentemente os padrões de consumo e a estrutura de necessidades[6]. Esta revolução permanente é, ao mesmo tempo, um processo de diferenciação e generalização do consumo. O valor do progresso, progresso do país ou progresso individual, é, pois, incorporado de maneira puramente mecânica: o mimetismo, pelos “inferiores”, dos padrões de consumo e estilos de vida dos “superiores”. A carreira desabalada pela ascensão social é, antes de tudo, uma corrida de miseráveis, pobres, remediados e ricos pela “atualização” dos padrões de consumo em permanente transformação. Aliás, a via principal de transmissão do valor do progresso foi sempre, entre nós, a da imitação dos padrões de consumo e dos estilos de vida reinantes nos países desenvolvidos.[7] 

O Jornal, O Estado de Mato Grosso, publicou artigo cheio de simbolismos, relacionando a elite das grandes cidades, o automóvel e a publicidade, “comemorou-se com algum brilhantismo no Rio e em São Paulo, assim como em toda América, o dia da propaganda. No rio o banquete no Automóvel Club esteve concorrido, comparecendo o mundo carioca publicitário[8]”. 

Esse processo é simbólico e move pessoas na direção do modelo de vida capitalista. Ninguém está livre da interferência do automóvel, ele também, iria provocar transformações no modelo urbanístico, alterando a forma de mobilidade ao promover adequações de ruas, além de modificar a legislação e códigos de conduta, impactar a economia, a política e as tradições, criar anseios e expectativas nos hábitos e nas práticas sociais.

O automóvel é compreendido artefato tecnológico na função de componente ativo e simbólico, produtor de conhecimento, como objeto que permite análise do espaço. É importante observar a perspectiva tecnológica, pois o automóvel como invenção e inovação, ao surgir impondo novas configurações à sociedade, demonstra não só o seu papel nesta construção da redefinição das identidades locais, como também os impactos e as transformações das práticas sociais desenvolvidas a partir de sua chegada, ou seja o automóvel não é apenas um objeto, e deve-se levar em consideração seu papel como componente tecnológico ao observar sua capacidade de criar lutas de representações. 

O automóvel tem grande participação para as transformações também da perspectiva cultural, observa-se que o automóvel cria realidades, ou seja: [...] ele tem a capacidade de “projetar significados que vão além de sua utilidade prática comum de objeto, impondo forma de organização e de desenvolvimento que tornem possível a sua existência, o que significa reproduzir as condições para as quais ele foi planejado, as condições ideais de seu centro criador.[9] O automóvel fez nosso presente, e vai ser nosso futuro, é a cidade em movimento se transformado. 

Coluna Especial MT Econômico - Setor Automotivo

Colunista MT Econômico: Ricardo J. J. Laub Jr.

Historiador e Empreendedor graduado no Curso de Licenciatura Plena em História na UFMT- Universidade Federal de Mato Grosso e em EMPREENDEDORISMO (2005) pelas Faculdades ICE. Com Mestrado em História Contemporânea pela UFMT/PPGHIS. MBA - Master in Business Administration em Gestão de Pessoas, MBA - Master in Business Administration em Gestão Empresarial e MBA - Master in Business Administration em Gestão de Marketing e Negócios. Professor na faculdade, Estácio de Sá - MT, Invest - Instituto de educação superior. Presidente da AGENCIAUTO/MT- Associação do Revendedores de Veículos do Estado de Mato Grosso, com larga experiência profissional na elaboração de planos de negócio voltados para o ramo automobilístico, gerenciamento comercial, administrativo, controle de estoque, avaliação de veículos, processos operacionais e estratégicos para empresas do setor automotivo e gestão de pessoas no âmbito organizacional.


Fontes de referência do artigo

[1] Universidade Federal de M. Grosso Ficaria mesmo em Campo Grande.  O Estado de Mato Grosso, Cuiabá, 18 jul. 1968. Coluna 1, Capa.   Disponível em:http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=098086&pesq=ufmt&pasta=ano%20196: 10/06/2018.

[2] De lamonica

[3] Dados registrados no Site Oficial do Detran ano de 2018.

[4] BRANDÃO, Ludimila de Lima. A Catedral e a Cidade: Uma abordagem da educação como prática social. Cuiabá: EdUFMT, 1997. p. 39.

[5] MELLO, João Manuel Cardoso; NOVAIS, Fernando Antonio. Capitalismo tardio e sociabilidade moderna. Unesp, 2009. p. 41.

[6] Ibidem, p. 07

[7] Ibidem, p. 07.

[8] OLIVEIRA, Alavaro. O século em Pílulas. O Estado de Mato Grosso, Cuiabá, 09 janl. 1940. Coluna 2, pg2 .Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=098086&pesq=autom%C3%B3vel&pasta=ano%20194: Acesso: 10/06/2018.

[9] SAVIO, op. cit., p. 04.


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