História do Automóvel

Opinião: O automóvel gerou uma revolução

Aqui se anda, não mais somente com os pés ou pelas esporas, mas pelo pedal, dos automóveis
Terça-feira 09 de Junho de 2020
MT Econômico/Ricardo Laub
Opinião: O automóvel gerou uma revolução

Para aqueles que gostam da história do carro, em Mato Grosso, o primeiro carro veio a rodar em 1903, no sul do estado. Os carros de boi e cavalos eram as grandes vedetes do fim do século XIX em Cuiabá. As questões voltadas à modernização já eram recorrentes, o automóvel e as estradas de rodagem estavam inseridos dentro dos debates e planos estratégicos desde os últimos 10 anos do século XIX, a termos do progresso para viabilizar a comunicação e desenvolver a região oeste brasileira, o automóvel era tido, junto com as ferrovias, um meio de modernização das cidades e, ao mesmo tempo viabilização de um modo de produção capitalista, que, de certa forma, acabaria com o modelo colonial de economia que o Estado vivia.

No ano de 1907, através do então presidente Afonso Pena, o governo federal, cria a Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas do Mato Grosso ao Amazonas, denominada posteriormente “Comissão Rondon”. Os objetivos eram “estender maior presença do governo central nas distantes províncias do Amazonas e do Acre”, proteger as divisas oeste brasileiras, além da ocupação e o desenvolvimento das regiões mais isoladas. Desde 1850 até os primeiros 60 anos do século XX, época em que já se realizavam ações e discussões de assuntos relativos ao atraso e às necessidades de melhorias das condições econômicas e de infraestrutura de Mato Grosso e da cidade de Cuiabá, a modernização da região é pautada como fundamental. Principalmente quando comparada Cuiabá as cidades do sul do estado, como Ponta Porã, ou ainda com as principais capitais brasileiras, como São Paulo e Rio de Janeiro[1].

Na Argentina, no dia 22 de junho de 1907, roda o primeiro carro a combustão interna, invenção do imigrante espanhol Dom Manuel Iglesias, inteiramente feito à mão. Quatro dias depois é fundada a Mark Brothes Cars Company, nos Estados Unidos da América, que iria fabricar os melhores caminhões da época. Em junho de 1907 “tem início a corrida automobilística mais fantástica até então realizada: ‘Pequim-Paris’, patrocinada pelo Jornal Le Matin, que anunciava: ‘[...] o que precisa ser provado é que, desde que o homem tenha um carro, ele pode fazer o que quiser e ir onde quiser”[2].

1907 é um ano é marcado pelo avanço tecnológico que se desenvolve na fabricação do automóvel, na potência dos motores V4, V6 e V12, suspensão, freios, caixa de mudanças de marcha, escapamento para refrigeração, entre outras inovações[3]. Um ano mais tarde, no dia 13 de fevereiro de 1908, tem início a corrida de automóveis de Nova York a Paris, via Vladivostok, a mais longa de todos os tempos, gerando uma expectativa assombrosa e multidões curiosas observando a saída das máquinas. Agora, ao vermos essas aventuras automobilísticas, entendemos que os desenhos animados, quando criavam suas histórias tinham um grande acervo de informações. Não é a toa um dos desenhos animados mais famosos se chamava, “Corrida Maluca”, não sem razão.

A intenção de propagar o automóvel como um produto que iria atender às demandas de transporte moderno, propunha uma expectativa emocional de caráter individual muito forte. Esse tipo de apelo comercial fazia crescer cada vez mais o interesse pelo automóvel em todos os lugares do mundo.

No Brasil e em Cuiabá, não foi diferente, o automóvel é tratado com fascínio e vai provocar interesse e curiosidade em grande parcela da população. A primeira viagem de automóvel ocorreu entre as cidades do Rio de janeiro e São Paulo, realizada pelo Conde Lesdain, no dia 10 de abril de 1908. Era a forma, propagava-se intencionalmente o automóvel também no Brasil, no início do século XX, como já ocorria em outros países e grandes cidades do mundo. Todos esses fatos, eventos, notícias e roteiros, estavam ao alcance de boa parcela de pessoas em Cuiabá, e eram vistos constantemente em publicações de jornais e revistas. No Japão o “Takuri” é o primeiro carro nipônico produzido e vendido comercialmente. Ainda no ano de 1908 surge a fabricante de pneus da Michelin nos Estados Unidos e a Ford lança um carro mais leve que vai vender a surpreendente marca de 14.888 automóveis.[1] Foi deste modo que o automóvel vai se difundindo como artefato tecnológico que surge dos interesses das políticas públicas, inicialmente no Brasil com mais evidência, na primeira década do século XX. É assunto comum em rodas de debate como necessário artefato de mudança, não apenas como ferramenta do transporte, mas como meio de modernização da cidade. Em Cuiabá o primeiro automóvel chega em 1911, um ano antes do primeiro automóvel rodar em Cuiabá e Várzea Grande. 

O automóvel chega e com ele nasce outra forma de pensar como realmente se deve viver. A cidade quando se trata de mobilidade, se obriga a se adequar, o comércio percebe a grande mudança que está ocorrendo no mundo e vai na direção de incentivar mais o comércio. É um dos momentos econômicos mais importantes do Estado de Mato Grosso e da nossa capital. Um registro fundamental desse movimento, ocorre em Cuiabá a partir de 1919, durante o governo de Dom Aquino, quando se inicia o processo de modificações para a adaptação e adequação do automóvel à cidade. Os jornais publicaram notícias sobre os eventos automobilísticos realizados em São Paulo, modelo em construção de estradas, e da importância delas para o desenvolvimento do estado. Interessado no progresso da cidade de Cuiabá, o governo de Dom Aquino, vai intensificar as notícias sobre o automóvel, estradas e progresso, como elementos associados para a modernização. Daí para frente a cidade de Cuiabá, sabia que nunca mais seria a mesma. É só olhar suas avenidas, em pleno século XXI,  ao fim do dia, as maiores avenidas, a luz de faróis nos brincam com uma linda imagem, como um lustre vitoriano, caminhos que brilham à capital, feito um letreiro anunciando, aqui se anda, não mais somente com os pés ou pelas esporas, mas pelo pedal, dos automóveis.

[1] Ibidem, 2010, p. 162.

[1] VOLPATO, Luiza Rios Ricci. Cativos do sertão: vida cotidiana e escravidão em Cuiabá em 1850-1888. Editora Marco Zero, 1993.

[2] VIEIRA, op. cit., p. 150-152.

[3] Ibidem, p. 162.

Coluna Especial MT Econômico - Setor Automotivo

Colunista MT Econômico: Ricardo Laub Jr.

Historiador e Empreendedor graduado no Curso de Licenciatura Plena em História na UFMT- Universidade Federal de Mato Grosso e em EMPREENDEDORISMO (2005) pelas Faculdades ICE. Com Mestrado em História Contemporânea pela UFMT/PPGHIS. MBA - Master in Business Administration em Gestão de Pessoas, MBA - Master in Business Administration em Gestão Empresarial e MBA - Master in Business Administration em Gestão de Marketing e Negócios. Professor na faculdade, Estácio de Sá - MT, Invest - Instituto de educação superior. Presidente da AGENCIAUTO/MT- Associação do Revendedores de Veículos do Estado de Mato Grosso, com larga experiência profissional na elaboração de planos de negócio voltados para o ramo automobilístico, gerenciamento comercial, administrativo, controle de estoque, avaliação de veículos, processos operacionais e estratégicos para empresas do setor automotivo e gestão de pessoas no âmbito organizacional.

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