Coronavírus politizado

Opinião: O Corona não tem partido

Respeitem nosso direito a não compartilharmos da sua cegueira ou conveniência política
Sábado 11 de Abril de 2020
Gustavo de Oliveira
Opinião: O Corona não tem partido

Tenho assistido com certo espanto e até alguma perplexidade o por vezes ridículo embate político recente no Brasil que domina os noticiários e gira em torno do coronavírus, em especial porque todos os outros temas relevantes foram pausados no momento. O eclipse viral nos faz esquecer momentaneamente que nossa educação continua de má qualidade, nossa segurança pública se resume a uma estratégia de contenção de danos com “casuais mortes” de lado a lado, nossa cultura, nosso esporte, nosso saneamento básico, nossa infraestrutura e tantos outros temas continuam precisando de atenção, mas seguem agora camuflados pela sombra do vírus. Embora tentem todos jogar a culpa na imprensa, facilmente se identifica que mais 90% deste tipo de informação é compartilhada em redes sociais, o que destrói a narrativa pessoal de que a culpa é da imprensa.

Em outro artigo há alguns dias sugeri que poderíamos fazer um FEBEAPÁ (Festival de Besteiras que Assola o País), edição 2020. Passadas poucas semanas, já identifico haver material de sobra para mais de um volume, tamanho o repertório de baboseiras (distrativas ou não) emanado de nossas competentes autoridades e alguns fiéis seguidores. Absolutamente não me choca que a classe política tente, com sempre fez, protagonizar o enfrentamento a este poderoso inimigo. Cada grupo se movimenta tentando antecipar qual parcela da crise pode cair no seu colo e faz dois movimentos: cria vacinas políticas tentando colocar a culpa em outro grupo e elabora narrativas irreais, que por vezes beiram o surrealismo, visando distorcer a percepção da realidade de uma sociedade que vive atormentada por fantasmas econômicos, sociais e de saúde.

Nesta pandemia de realidades adulteradas, o cidadão comum deve manter o seu foco na parte que lhe cabe: restringir sua convivência social ao máximo possível, evitando aglomerações (que antes eram eventos com mais de mil pessoas, e agora são eventos com mais de 6 ou 8 pessoas), tomando os cuidados de higiene pessoal recomendados, usar máscaras sempre que tiver que se expor ao encontro com desconhecidos, na rua ou mesmo em sua casa, e evitar o contato pessoal a menos de 1,5 m de distância. Quem faz parte de algum grupo de maior risco (idosos ou mesmo os jovens com mais de 60 anos cronológicos, hipertensos, diabéticos, pessoas imunodeprimidas, pacientes renais crônicos e portadores de alguma síndrome respiratória) deve assumir uma postura ainda mais protetiva, e explicar aos demais de sua convivência que 2020 será de pouco contato e muitas saudades, motivados por um desejo imenso de estar por aqui conosco por muito mais tempo para compensar, no futuro, as ausências em aniversários e outras datas neste ano.

Agora, ao ser politizado e cego, me permitam um conselho: se os defendem tão entusiasticamente, sigam sozinhos os conselhos e exemplos de seus líderes. Circulem pelas padarias, abracem desconhecidos, não usem máscaras, neguem a si mesmos os tratamentos com remédios que, embora ainda em protocolos experimentais, se mostram eficientes no combate à COVID19.  Respeitamos integralmente suas convicções e predisposições a sacrifícios pessoais em nome de ideologias. Mas façam isso sozinhos, sem querer que indivíduos que não estão cegos pelo radicalismo político achem que existe um remédio que realmente é de propriedade do político  fulano ou que é trancado em casa que todos terão que esperar 2020 passar. Respeitem nosso direito a não compartilharmos da sua cegueira ou conveniência política.

Encerro este breve artigo citando duas frases de outro grande escritor brasileiro, do qual tenho saudade: Nelson Rodrigues. “Qualquer indivíduo é mais importante que a Via Láctea inteira” e “Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.”

Quanto à mim, sigo firme na minha escolha pessoal: prefiro continuar como um vivo desconfiado do que morrer como um cadáver convicto. Se o Corona não tem partido, prefiro lutar contra ele sem ter um também.

Gustavo de Oliveira
Sem partido, mas com juízo.


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