Pantanal

Opinião: Pantanal, questão humanitária

Quem pensa que as condições de manutenção da região da sua exploração econômica pecuária é coisa nova, engana-se
Quarta-feira 07 de Outubro de 2020
Onofre Ribeiro
Opinião: Pantanal, questão humanitária

Em 2020 os incêndios trouxeram o Pantanal de Mato Grosso pras páginas da mídia como nunca antes. É uma região muito específica. Sua história foi construída lentamente a partir da segunda metade do século 17. Chegou a 2020 com muitos altos e baixos. Quem pensa que as condições de manutenção da região da sua exploração econômica pecuária é coisa nova, engana-se.

Encontrei documentos de épocas diferentes. A linha de raciocínio é sempre a mesma: a defesa ambiental do bioma e apoio pra exploração econômica da pecuária. Vamos a três documentos de épocas diferentes:

1 – Encontro do Pantanal em 1975 em Poconé – ampla discussão envolvendo ministros do governo federal da época. Especialmente o ministro da Agricultura, Alysson Paulinelli. Foi um encontro político importante envolvendo parlamentares estaduais e o governo estadual.

2 – Encontro dos Pecuarista, em Poconé, abril de 1985 - Documento do Sindicato Rural de Poconé faz uma ampla avaliação da histórica humana e econômica do Pantanal, dividindo-o em três regiões: alto, médio e baixo Pantanal. O encontro resultou na “Carta de Poconé”. Nela os pecuaristas alinham todas as nuances econômicas, humanas e ambientais. E fazem reivindicações propondo o revigoramento regional. Mostrou a decadência do rebanho bovino em comparação com 1970.

3- Discurso do senador Antero Paes de Barros no Senado em 2000. Faz um amplo relato humano, social e econômico do Pantanal. Aponta duas coisas relevantes: que “o boi não precisa do Pantanal, mas o Pantanal precisa do boi,. O boi é o bombeiro do Pantanal”. Cita também a redução do rebanho. Anoto a seguir. Barão de Melgaço, 126 mil cabeças em 1975 e 66 mil em 2000. Cáceres de 346 mil para 236 mil. Livramento de 52 mil para 23 mil. Poconé, de 349 mil para 75 mil. Leverger, de 117 mil para 275 mil. O Pantanal saiu de 992 mil cabeças em 1975 para 670 em 2000.

Já no ano de 2000, o senador Antero Paes de Barros acusava que organizações não-governamentais defendiam a desocupação do Pantanal para transformá-lo em região de contemplação visual. Acusava as Ongs também de não terem ouvido em nenhum ,momento “os verdadeiros cientistas do Pantanal,. Que são os pantaneiros”.

Em 2020 o ambiente é hostil e abriu uma ferida na sociedade por conta dos incêndios. Aliás, além do senador Antero, os pantaneiros e instituições privadas perceberam o Pantanal sem o boi se tornaria incendiário. A massa de vegetação criaria o ambiente ideal pro fogo sem controle. Sem defesa, as Ongs em 2020 tentam desviar o foco do fogo para os pantaneiros e culpá-los.

A verdade, contudo é clara. Não se observou o que se disse lá atrás. De agora por diante não há mais como ignorar a problemática do Pantanal. Já não é uma questão só acadêmica, nem econômica, social ou humana. Nem só de Mato Grosso. É proteger um bioma de interesse mundial,  como Reserva da Biosfera do Pantanal.

Tornou-se uma questão humanitária.

Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso

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