Opinião: Economizar energia elétrica requer instrumentos eficientes e inteligentes de gestão

A Agência Nacional de Energia Elétrica-ANEEL anunciou no dia 31 de agosto de 2021, um novo reajuste de bandeira tarifária para as contas de energia elétrica. A “bandeira tarifária escassez hídrica”, em vigor a partir de 1º de setembro e que vai até 30 de abril de 2022 com custo adicional nas faturas de R$ 14,20 para cada 100 kWh consumidos. Em relação à bandeira vermelha patamar 2 (R$ 9,49 por 100 kWh) que estava em vigor, representou um aumento de 49,6%.

Segundo os órgãos do setor elétrico houve uma piora da crise hídrica com perspectivas preocupantes quanto a uma possível falta de energia em outubro e novembro. Este novo patamar da bandeira tarifária escassez hídrica provocará aumento de 6,78% na tarifa média dos consumidores regulados ou cativos que atualmente somente podem adquirir sua energia das distribuidoras locais.  O déficit de arrecadação já existente na conta bandeiras tarifárias já seria superior a R$ 5 bilhões.

A Câmara de Regras Excepcionais para Gestão Hidroenergética-CREG determinou ainda a implementação do Programa de Resposta Voluntária da Demanda para os consumidores cativos ou do mercado regulado. Foi aprovado um bônus de R$ 50 por 100 kWh reduzidos a partir de setembro, limitado à faixa de economia entre 10% e 20%. Quem economizar mais que 20% não receberá premiação adicional. A comparação será entre o consumo médio do período de setembro a dezembro de 2021 com o mesmo período de 2020. A medida poderá ser prorrogada e será custeada com recursos dos próprios consumidores, através de um encargo que é cobrado na conta de energia (Encargos de Serviços do Sistema-ESS).

A CREG isentou os consumidores beneficiários da Tarifa Social de pagar a bandeira tarifária escassez hídrica. Desta forma continuarão pagando, com desconto, a bandeira tarifária acionada mensalmente pela ANEEL. Isso significa que as famílias de baixa renda inscritas no programa de Tarifa Social, pagam as bandeiras com os mesmos descontos que já têm nas tarifas, de 10% a 65%, dependendo da faixa de consumo.

Nesta crise hídrica mais do que nunca algumas lições precisam ser aprendidas, dentre elas está a implementação de mecanismos de gestão eficientes do consumo de energia elétrica com apoio da tecnologia.

Por enquanto, o consumidor cativo ou regulado conta somente com si próprio, meio no “escuro” sem outros mecanismos mais eficientes para tentar reduzir sua conta mensal e, há um bom caminho a explorar neste sentido. Por outro lado, as abordagens das empresas distribuidoras de energia elétrica e demais órgãos do setor elétrico tem sido muito previsíveis no tocante a economia de energia. Estampar frases como “Não deixe luzes acesas sem necessidade” por si sójá não despertam mais o interesse dos consumidores. As ações de “incentivo” das distribuidoras para os consumidores reduzirem suas contas são sempre bem superficiais, parece para “cumprir tabela”, não fogem do senso comum, e não sensibilizam mais o consumidor.

A energia consumida é o produto da potência do equipamento em Watts pelo seu tempo de uso, resultando no famoso kWh. Então, a orientação é “gestão”. Gestão do tempo de uso dos equipamentos e gestão para o uso da energia de forma consciente e inteligente. Entendemos, porém, que pelo preço que se paga na conta de energia, o consumidor não pode e não deveria ficar sabendo do tamanho da mesma só no final do mês, com o gasto já comprometido.

Já passou da hora da ANEEL-Agência Nacional de Energia Elétrica implementar regulamentação junto às distribuidoras para que implantem instrumentos mínimos de gestão, dentre eles os medidores inteligentes, para utilização de todos os consumidores, grandes ou pequenos. Tais ferramentas poderiam ser viabilizadas através de uma plataforma amigável de baixo custo, utilizando interface com medidores inteligentes ou smart meters e uma rede wi-fi via celular/computador, possibilitando que o consumidor possa fazer a gestão em tempo real e telesupervisionando seu consumo dia a dia. Esses medidores inteligentes recebem, automaticamente, informações em tempo real sobre o consumo de energia. Com eles, é possível saber quais equipamentos estão consumindo mais energia, e quais são os horários de maior consumo, entre outras informações.

A partir disto será possível então criar uma consciência para mudar hábitos e economizar. Gerenciando efetivamente o consumo diariamente, consumidores residenciais, por exemplo, onde o ICMS no estado de Mato Grosso é aplicado por faixas de consumo (até 100 KWh=isento, de 101 a 150 KWh=10%, de 151 a 250 KWh=17%, de 251 a 500 KWh=25% e acima de 500 KWh=27 %), poderiam além de ganhos com a redução do consumo, cuidar ainda para conseguir mudar para uma faixa de tributação menor, ampliando ainda mais os ganhos da economia.

Até o momento, muito se falou nos medidores inteligentes, mas não avançamos neste aspecto gerencial. Apesar dos potenciais consumidores que poderiam economizar energia elétrica neste momento estarem nos seus limites devido a alta do custo da energia, estes poderiam ajudar mais o país (e eles próprios), contudo, precisariam ter o seu consumo na “palma da mão” e on-line.

O governo não pode desperdiçar nenhuma contribuição para tentar reduzir o consumo de energia. Apesar de bem-vinda, a redução por incentivo econômico por parte dos consumidores residenciais e demais consumidores regulados poderá ser bem limitada, pois como ressaltado anteriormente, com a alta do preço da energia (reajustes tarifários anuais das distribuidoras consideráveis, bandeira tarifária a R$ 14,20 para cada 100 kWh, com reajustes absurdos), a maioria dos consumidores com potencial para reduzir já está economizando e podem já estarem nos seus limites.

Em Mato Grosso, temos ainda um fator complicador nesta época de altas temperaturas e baixa umidade no período de agosto a outubro. Estima-se que o calor excessivo nesta época do ano no estado influencia num aumento de cerca de 20% a 50% no consumo de energia dependendo do perfil do consumidor e quantidade de equipamentos que utiliza. Os equipamentos de refrigeração merecem atenção especial e dentro destes, o ar condicionado é o “ator principal”. De acordo com o engenheiro mecânico Arnaldo Lopes Parra, especializado em climatização e vice-presidente de marketing da Associação Brasileira de Refrigeração, Ar-condicionado e Ventilação-ABRAVA, entre a cada grau que se reduz no controle remoto do equipamento, são cerca de 3,5% de aumento no consumo de energia. “Existem alguns estudos da ABRAVA que comprovam que, se o ar estiver em 23ºC e o ajuste da temperatura for aumentado para 25ºC, haverá uma redução de 7% no consumo”. De forma análoga, se o ajuste estiver em 23ºC e for reduzido para 21ºC, haverá um aumento de 7% no consumo. Mesmo a redução voluntária do programa sendo calculada comparando com igual período de 2020 fica muito difícil se obter resultados mais positivos onde fatores climáticos, sociais e econômicos podem influenciar muito de um ano para outro. 

A nossa responsabilidade diante desta crise só faz aumentar e refletir sobre a necessidade de cuidar mais dos nossos recursos naturais, com preservação e sustentabilidade na sua utilização e diversificar mais a matriz de geração de energia com outras fontes renováveis, tornando-nos menos dependentes de ciclos hidrológicos mais favoráveis para armazenamentos mais satisfatórios nas usinas hidrelétricas para posterior utilização no período de estiagem.

Por fim, para otimização dos resultados, o tripé-equipamentos mais eficientes, hábitos conscientes e projetos inteligentes, deve estar bem alinhado. É preciso agir estrategicamente e com inteligência produzindo equipamentos mais eficientes e elaborando bons projetos congregar todos estes elementos. Agindo desta forma estaremos reduzindo o consumo, o gasto e ainda protegendo o meio ambiente e as futuras gerações, que nos agradecerão. E afinal como sempre digo: a melhor energia é aquela que não se gasta. Mas para tal, os consumidores em geral, seja uma residência, ou um pequeno comércio, precisam do auxílio da tecnologia para explorar oportunidades de redução do consumo diariamente ao longo do mês de forma sistematizada, sem contudo abrir mão do conforto e dos benefícios da energia elétrica. E assim, voltando ao título deste artigo, mais do que nunca, “economizar energia elétrica requer instrumentos eficientes e inteligentes de gestão”. O consumidor que paga por todos os riscos da cadeia do setor elétrico, pelo seu planejamento e seus custos, agradeceria!

Formas de economizar energia elétrica em seu dia a dia

Valorizar a iluminação natural;

Trocar as lâmpadas pelas do tipo LED;

Ar condicionado: a temperatura ideal deve ficar em 23 graus com o ambiente fechado e limpar regularmente o filtro;

Chuveiro elétrico: tomar banhos de até 5 minutos e utilizar a temperatura morna no verão;

Aparelhos em stand-by: retirar os aparelhos eletrônicos da tomada quando possível

Ter atenção ao estado dos eletrodomésticos;

Diminuir o uso de aparelhos como ferro elétrico e máquina de lavar. Juntar a maior quantidade de roupas para utilização em uma única vez.

Teomar Estevão Magri, Engenheiro Eletricista com MBA em Gestão de Negócios, Especialista e Consultor em Energia, membro do Conselho de Consumidores de Energia Elétrica de Mato Grosso-Concel MT. 

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