Opinião: Tempo ferroviário – Série de artigos 1/3

Neste momento Mato Grosso está começando a lidar objetivamente com a solução do seu cruel problema de logística. Três ferrovias estão na pauta objetiva do país: Ferrovia estadual, Fico e Ferronorte. Somam 2.016 quilômetros de extensão e investimentos de 36 bilhões e 200 milhões de reais.

Estamos falando de uma nova era no Centro-Oeste e particularmente em Mato Grosso, que será pra sempre o maior produtor de alimentos do país e um dos maiores no mundo. Uma nova era significa a complementação do sistema de transportes rodoviário com as ferrovias, justamente no eixo das principais área de produção de alimentos. Com transporte adequado, Mato Grosso completará a terceira profecia do sacerdote católico Dom Bosco, em 1895, segundo a qual “entre os graus 15 e 20, existia um seio de terra bastante largo e longo, que partia de um ponto onde se formava um lago. (…) Surgirá aqui a Terra da Promissão, fluente de leite e mel”. Uma série de outras percepções na mesma linha foram previstas nos dois últimos séculos, incluindo o atual Dalai Lama. Segundo ele, “com a saída do Dalai Lama, do Tibete, em 1960, o coração espiritual do mundo transfere-se para o coração da América do Sul”.

Esta série de três artigos fara uma trajetória pelo tema ferrovias na percepção de Mato Grosso e na percepção brasileira iniciada no século 19. Os cafezais de São Paulo, de Minas e do Espirito Santo até os anos 1960 foram apoiados por ferrovias. Na segunda metade do século, o Paraná entrou forte na produção de café, mas já usando o rodoviarismo. Na década de 1960 as ferrovias perderam espaço pros caminhões. Desde então, a decadência dos trilhos foi total.

Hoje, por questões ambientais de emissão de carbono, por outros problemas ambientais, pelos custos do caminhão, pelos custos do frente de longa distância, pelas limitações desse transporte diante da produção, por questões de segurança e pelo custo altíssimo das rodovias, dos fretes e dos pedágios, dos combustíveis, o rodoviarismo está com os dias contados. Até mesmo a mentalidade pós-pandemia não comportará mais o rodoviarismo nos moldes atuais.

Para Mato Grosso expandir-se as ferrovias farão uma diferença enorme. Hoje o frete entre Sorriso e o porto de Santos, em SP, custa R$ 278,00 por tonelada. Além da irracionalidade da distância percorrida com todos os riscos e custos agregados, o produtor perde muito do seu esforço pagando o transporte.

Antes de discutirmos as ferrovias uma a uma e de recuperar a história do ferroviarismo no Brasil nos próximos artigos, é preciso dizer que será inevitável a substituição do sistema de transporte rodoviário de longa distância por ferrovias. Na verdade, os sistemas rodoviário, ferroviário e hidroviário se completam. Exemplo, os portos de Mirititiuba e Santarém, no chamado Arco Norte.

Com as ferrovias, surge um mundo completamente novo que vem premiar o pioneirismo dos produtores do centro-Oeste, e de Mato Grosso em particular, que desbravaram os cerrados desconhecidos e fizeram deles oásis de altíssima produção de alimentos nessas últimas 4 décadas.

Para o Brasil e para Mato Grosso, é bem claro, que as ferrovias serão o futuro. E está bem claro, também, que o país será o que se chamou lá atrás, de “celeiro do mundo”. Isso pede eficiência nos transportes. Continua amanhã.

Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso

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